Sem noção nenhuma de nada


Pra todos os efeitos, o meu nome é Zé. Se for falar algum dia que me leu, trate de referir-se à minha pessoa como Zé. Eu não tenho opiniões muito populares e eu acho que vai te salvar o constrangimento de ouvir um maluco como eu. Eu acho que ta todo mundo errado, que todo mundo é burro ou tem o cérebro imerso em formol, que a diferença entre os humanos e os macacos é que os humanos não tem a menor noção do que estão fazendo.
Portanto, é de se esperar que eu irrite muita gente.
Como se não bastasse isso, vez ou outra eu mato um filho da puta. Eu não sou assassino não, mas às vezes eu fico entediado, compro uma arma, descubro uma pessoa dessas que a gente sabe que merece morrer e dou três tiros na cara do filho da puta. Mas uma coisa que a gente percebe com o tempo é que todo filho da puta tem família. Todo filho da puta, não importa quão filho da puta seja o filho da puta, tem alguém que não achava ele filho da puta de forma alguma, de repente até tinha um certo respeito pelo cara. Isso dificulta a coisa toda. Não dá pra matar ninguém, acredito eu, por pior que a pessoa seja, sem pensar nessas pessoas que estão conectadas a ela.
O que leva a uma segunda teoria que eu também tenho: nós não somos individuais. Tudo bem que a gente vive em sociedade e coisa e tal, mas não é exatamente isso que eu quero dizer. A impressão que eu tenho é que somos apenas células em um grande organismo, e quando somos células filhas da puta o organismo inteiro fica comprometido. Vou dar um exemplo: se você estivesse sozinho numa ilha deserta, nada do que você fizesse seria bom, ruim, interessante, desinteressante. Na verdade, tudo que você considera parte da sua personalidade seria apenas uma lembrança, já que todos os nossos conceitos básicos se baseiam na interação humana – e não no humano em si.
Então beleza, ta aí outra coisa, eu me acho bastante filosófico. Mas de repente o resto das pessoas que é completamente imbecil, porque isso é o que eu penso no café da manhã ou indo pro trabalho. Eu não vou dizer qual o meu trabalho, só vou dizer que vou de terno e tenho uma maleta. Eu não precisava de uma maleta, mas eu gosto bastante de maletas e elas são úteis pra se esconder uma arma. Eu preciso de uma arma na minha profissão? Provavelmente não, mas me deixa mais tranquilo saber que eu tenho uma. No pior dos casos, estouro os miolos de alguém – ou os meus.
O que me lembra de uma história engraçada: uma vez eu conheci uma mulher num aeroporto e transei com ela no avião. É engraçado como as coisas acontecem, ela acabou sentando do meu lado e o nosso voo atrasou por duas horas. Ela era do sul e eu era de Niterói. Nunca mais nos vimos.
Eu to querendo parar de fumar maconha, fumar maconha me deixa lento. Eu não gosto de ser lento, mas gosto de fumar porque deixa as coisas menos irritantes e ligeiramente mais engraçadas. Meus colegas do trabalho ficam menos irritantes, minha vida fica menos irritante e o sexo fica ainda melhor. Mas me deixa lento. Eu não quero ser lento. Se eu não tivesse nenhum juízo, como esses ricaços que passam metade do ano em Miami, eu cheirava pó. Deve ser muito bom ter energia pra fazer tudo porque você ta cheirando pó. Mas como eu disse, eu tenho algum juízo. Onde será que Freud tava com a cabeça?
De forma geral, eu continuo entediado, mesmo atirando nas pessoas de vez em quando. Você deve estar pensando que eu tava brincando quando falei aquilo, mas não. Então cuidado: não seja um bom filho da puta próximo de Rio de Janeiro e Niterói ou você estará correndo um belo risco de tomar três tiros na cara. Eu não vou dizer como eu faço e nem vou dizer quem eu sou, mas, pra todos os efeitos, me chamam de Zé. Zé Roberto, caso queira um segundo nome fictício.
Pela minha vida, só passaram três mulheres: minha mãe e duas outras namoradas minhas. Eu não sei dizer quais, mas eu sei que eu não posso deixar minha mãe do lado de uma imensidão de mulheres que eu amei, não seria certo. Minha mãe foi a mulher que eu mais amei na vida, e em seguida algumas namoradas. No máximo duas. Eu amei com todo o meu coração ao longo da minha vida, acho que é por isso que eu sinto tanta raiva de todo mundo. Talvez porque uma quantidade de amor exija uma quantidade de raiva, talvez porque a decepção de uma pessoa que ama seja maior em um mundo tão escroto e sem noção como é o meu.
Aqui eu vou te dar outra notícia desagradável: se você não acha o mundo escroto e sem noção, você provavelmente merece tomar três tiros na cara. Eu não to dizendo que eu mataria gente como você só porque tem uma noção deturpada das coisas, eu já disse que escolho só os mais filhos da puta e você provavelmente é fichinha. Mas se você não enxerga a podridão que essa nossa raça proporcionou a esse planeta, eu quero mais é que você vá se foder. Entendeu?
Claro, sempre tem a opção de estarmos nos referindo a mundos diferentes. Talvez esses escritos tenham sobrevivido – miraculosamente – ao tempo e ao desgaste, talvez tenha sido até publicado em alguma merda de revista ou um jornalzinho mixuruca e você ta lendo uns 30 anos depois porque é algum tipo de historiador que se interessa pelos pensamentos lúgubres dessa sociedade pós-apocalíptica pós-moderna. De qualquer forma, pra todo o resto, lide como se estivéssemos no mesmo quarto.
Outra história semelhante é de quando eu era moleque e vendia droga pra sobreviver. Eu tinha que lidar com uns caras que sempre me passavam a perna, então eu me irritei e parei de passar. Acho que em qualquer linha de negócio você tem que se dar ao respeito, sabe? Senão acaba fazendo o jogo dos caras. Eu não sou corrupto nem filho da puta, entrei nisso por necessidade, mas também não julgo quem faz. Pra mim tinha que ser tudo legalizado.
Voltando ao que a gente tava falando, não dá pra ser inteligente e não ser um pouco paranoico. Pra ficar tranquilo, acredito eu, você tem que ser no mínimo um pouco estúpido, meio sem noção ou só extremamente babaca. Eu gosto do babaca porque ele tenta me convencer de que ele não é tão babaca. Já soquei um babaca na cara uma vez antes que ele pudesse me explicar o argumento babaca sobre ele não ser tão babaca assim. Foi uma experiência positiva.
Ademais, eu acho que não falta nada pra dizer. O mundo vai acabar, a Bitcoin vai crescer, pessoas morrerão de fome e guerra. Acho que o problema da gente é imaginar o fim do mundo como uma coisa nova e diferente. O fim do mundo é mais do mesmo.
É isso. Já cansei de você.
Vai tomar no meio do teu cu.

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