Incêndio

Minha mãe morreu num incêndio que começou dois anos antes da sua morte. Foi no quarto dela que eu soube, depois de uma cirurgia, que o incêndio já havia começado. "Não vai ser nada", eles disseram. "Começaremos o tratamento e o fogo vai embora logo logo". Não foi. Começou nas paredes do quartinho dos fundos, então demoliram o quarto "para proteger o resto da casa". Usaram produtos químicos que deixavam a minha mãe doente. Os produtos, por sua vez, destruíram parcialmente a mesa de jantar. A essa altura a estrutura já estava fraca e minha mãe já não queria mais comer. Me disseram que é assim mesmo, que melhora primeiro pra depois piorar. Mentira. Depois foi a cozinha que começou a queimar. Eu diria que foi tudo muito rápido, ou eu que não queria ver. É muito mais difícil de viver do que de falar sobre e pensar. O fogo descascava as paredes.
Foi já quase no final que isolamos os corredores e fizemos uma saída de emergência que dava do quarto pra sala, da sala pro quarto. Não teve jeito: foi no dia que o fogo chegou na sala que levaram minha mãe de casa. Eu estava no computador. Eu já sabia, sabia que ela não ia voltar, mas não levantei. A essa altura, o fogo já havia consumido mais da metade da casa e não tinha mais o que se fazer. A casa desabou. Me despedi às pressas do quarto e fomos morar na minha avó. O enterro foi longe, mas todo mundo foi pra ver aquela mulher que quase sobreviveu ao fogo. Não foi só ela que o incêndio levou: foi parte de mim também. E talvez ainda leve mais, mas disso eu já não posso falar.

No final, todas as coisas queimam.

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