Desamor

Acredito estar passando por uma época de extremo desamor pelo público - o que explicaria de antemão meu silenciar de palavras. No lugar do sentimentalismo, hoje me encontro num purismo intelectual que, ao mesmo tempo que me traz fastio, me traz infelicidade e deixa tudo insosso. Sinto-me, a todo momento, como se estivesse sentado nos ladrilhos de uma piscina vazia, fumando um cigarro sem gosto em um fim de tarde nublado qualquer. É como se, por mais que eu quisesse observar a poesia que existe ao meu redor, passados alguns instantes eu seria tomado pelo tédio, pelo amargor do silêncio, até mesmo pela culpa... Então acabo negando-a e entregando-me a esse vazio existencial. Talvez o sentimento seja, para algum observador anônimo, interessante de ler; não é, porém, suficientemente relevante pra mim transformar essa solidez cinza em escrita. Sei que dizem que tudo é arte, mas não é assim que eu me sinto: conforme divago, torna-se mais evidente a minha falta de sentimento ao divagar, como se de mim eu já tivesse drenado toda a real poesia, penetrante e voraz. Sinto-me murcho, desnutrido, só. Como se o tempo me tivesse devorado de tal forma que só me sobrou a casca. Mas tardo a resignar-me do cargo de poeta-escritor. Afinal, talvez das cinzas deste velho eu, esteja pra nascer um eu-lírico muito mais compenetrado e apaixonado, jovial até. Um novo de mim. Talvez até venha a merecer outro nome de batismo, quem sabe? Daí então, quando eu olhar pra trás, poderei ver o cinza desesperançoso do meu presente passado e rir da minha embriaguez apática. Pergunto-me o sentimento que me dominaria hoje caso eu me deparasse com esse futuro reflexo: seria o alívio advindo da noção de finitude desta crise ou o desconforto pelo percebimento da minha pateticidade atual?

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