O conhaque

Certa vez tomei um porre de conhaque com a morte. Entrei num bar e lá estava ela, vestida de seda e pintada de moça jovem, robusta, sedutora. Soube de instante quem era: se outro ali percebia, não reparei. É possível que ninguém tenha prestado atenção de propósito, poucos têm a coragem - ou a insensatez, no meu caso - de encarar a morte. Talvez também ela já estivesse me esperando e, por natureza sobrenatural, consiga revelar-se apenas para quem quer.
Me ofereceu uma dose. "Em troca de uma semana de vida", combinamos. Não dá pra argumentar com a morte. Sentei no banco, que estava mais gelado do que de costume. O bar todo estava, acho que é assim que funciona durante o dia. Lá no fundo, conseguia ouvir um velho tossir todos os cigarros que teimou em tragar na juventude. Bebi sem pensar duas vezes. Olhei pra Ela e reparei suas luvas.
Será que ela estava usando luvas antes?
"Você não tem medo de mim?"
Encarei-a. Por que eu teria?, respondi. Você chega pra todos nós eventualmente. Desperdiçar meu tempo temendo o que virá só me parece um jeito mais fácil de antecipar sua vinda.
Ela me encarou por um longo período de tempo, me ofereceu menos uma semana. Aceitei.
"É por isso que continua a beber?"
Não. Eu bebo porque eu gosto de beber.
"Mas e os seus dias de vida?"
Entenda, eles só vão fazer diferença caso eu saiba quantos dias eu tenho - informação essa que eu não pretendo adquirir da senhora. Sendo assim, as doses que eu ganho só farão diferença quando eu for morrer, porque aí eu vou pensar nas semanas que desperdicei nesse bar imundo.
O bartender não pareceu gostar muito do meu comentário.
"Bem, acho que isso responde a minha próxima pergunta."
Qual era a sua próxima pergunta?
Ela não me respondeu e mudamos de assunto. Contei sobre os meus problemas, ela contou dos dela. Acabei perguntando sobre a existência dela, mas não obtive qualquer resposta minimamente significante. "Eu não existo de verdade pra vocês. Isso é, eu existo, mas a minha natureza é tão paralelamente distante da sua dimensão que a minha própria incumbência não passa de um conceito". Mudei de tópico.
Saímos de lá e fomos pra um motel. Eu sei que disse que apenas havia bebido com a morte uma vez, mas não faria sentido dizer que fui pra cama com Ela, estragaria o clímax de uma boa história. Foi bom, mas acho que foi melhor pra mim. A morte não tem pressa, só capricho. Apesar da frieza no toque - suas mãos não eram como as de um defunto - sua língua era quente e febril, o que me fez deseja-la mais. Não quis perguntar se ela veio me buscar e mudar de ideia, mas desde então penso menos em voltar a vê-la. Paradoxal, não? Parei de beber tanto assim, talvez eu até faça um plano de saúde...

Comentários

Postagens mais visitadas