Inindividual
Tenho mulher e tenho bichos. Todos eles pra eu não precisar ficar sozinho e ter alguma coisa pra acariciar. Eu poderia comprar um tapete ou uma televisão nova, mas coisas materiais só resolvem no início. A mulher e os bichos só resolvem no início também. É defeito de gente carente achar que a carência vem de fora. Nada vem de fora, nem o fora. Até o mundo em que vivo é, na verdade, a visão sobre o mundo em que penso viver. Penso? Existo apenas. Existo? Sou. Intransitivo e intransferível. Se me perguntarem o que ou quando, nada direi. O silêncio é a minha voz. Até mesmo agora, nesse mesmo momento em que falo, falo e falo. Não sou eu falando, é você. A voz na sua cabeça é sua e a leitura é sua e as palavras são, quando as lê, nossas. Pergunto-me se tem algo aqui que não pertence a ninguém. É plausível. Por talvez existir e não pertencer, a gente não enxerga. Talvez seja isso: talvez a gente só enxergue as coisas que pertencem. Eu, por exemplo, não pertenço e você não me enxerga. Mas você me imagina. Se já me viu, imagina que me viu e imagina me enxergando, mas nunca me enxergou. Me enxergar nem meus bichos ou minha mulher fizeram. Só eu me enxergo. Nem eu me enxergo se eu for parar pra pensar, então nem paro. Tanta coisa pra pensar nos dias de hoje, não é verdade? A gente vai só existindo entre um trago e outro, mulher, bichos e perfumes de outras mulheres talvez. Sorte? Azar? É miserável ter que mentir, mas dizer a verdade fere a liberdade de agir. Eu sou o ato. Sou o desgosto do ato, mas primeiro eu sou o ato. Se me perguntarem ou me pedirem pra explicar, eu sou silêncio. Ato não fala, muito menos explica. Talvez você possa explicar já que você tem a voz, a leitura e metade das palavras. Dê a leitura a mais alguém e pegue as nossas palavras pra si. Eu vou dar uma volta e fumar um tabaco, mas por favor continue. Continue, continue...
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