Gás
Encontro meu lugar entre o colchão e a parede. Em ordem, somos: a parede, eu e o colchão encaixados em uma espécie de sanduíche cósmico. Meus seios estão meio esmagados pelo colchão, que é macio e eu não me importo. O celular toca, mas eu não atendo: estou no meu lugar. Ao vislumbrar o passado, lembro-me de ter deixado o fogão aceso. Algum fogão em algum outro canto do mundo, penso, não tem fogão nenhum aqui. Respiro fundo e relaxo. Meu lugar é entre o colchão e a parede. Tudo que aconteceu antes daqui não mais importa. Pablo não importa mais e também nenhum dos que vieram antes dele. Pablo é o meu ex. Talvez não meu por eu agora ser parte desse conjunto que me engole, mas do eu anterior a mim. Eu era incompleta, admito. Era uma peça tentando encaixar-me em outros ambientes e tentando encaixar os ambientes de outros em mim. Encaixei-os todos: Pablo, o vizinho bonito, o vizinho viúvo e o tal carteiro-que-não-vai-trabalhar-nisso-pra-sempre. Eu, minha vulva e o carteiro. Eu, minha vulva e o João do décimo primeiro andar. Não. Nada completa mais o meu sujeito composto do que a parede, nada acaricia minha vulva de forma tão eficaz quanto esse colchão. Estou pensando em sexo agora e não posso pensar em sexo porque daqui a pouco começo a pensar em como tudo aconteceu até pensar eventualmente no gás que a eu-de-antes deix(ou/ei) ligado. Nada disso importa agora, somos um conjunto de coisas. Começo a sentir o cheiro salgado de propano e butano inundando as minhas narinas, mas apenas um terço de nós se incomoda. O resto é objeto e eu, conforme minhas antecedentes vontades, serei objeto também. Nada é perfeito em mim. Somos apenas um conjunto de outros seres que separados não significam na
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