Bar
E foi no banheiro do bar que o homem e seu reflexo entreolharam-se no espelho. Sabiam os dois o que não deveriam ser, mas seriam: o conjunto de toda a desistência senil que teimou em procriar-se por dentro, inchando as pálpebras e curvando a coluna, precipitando-se pelos cantos dos olhos no ocasional soluçar noturno. Era a depressão que os seguia, ambos: o homem e a ideia que o homem tem de si. Sem querer a explicação que já obtinha, o corpo virou-se no copo e bebeu-se misturado ao velho gim, perdendo-os no fundo do vidro que refletia doença.
No dia seguinte, no desabotoar dos olhos, as dores do corpo gritaram clemência, mas a indecência era – como sempre foi – o maior dos protestos da alma. Continuou a destruir-se com a desculpa: tempo. É sempre sobre o tempo, tudo vai embora e nada muda. A alma seca, quebra e sangra sobre as rachaduras e se entreolha, derrotada, dizendo entre lamúrias: nada muda, e nada muda. Voltou-se ao bar, trôpego por antecipação pediu mais gim. Engoliu-se, percorreu as mesas com o olhar e esbarrou num reflexo singular que o fitava em cabelos negros.
Foi a simples conexão entre um nada e outra definição que fizeram o coração do homem parar. Os ombros nus pedantemente inocentes da menina riram daquele bar e o homem sorriu de volta primeiro. A criança pareceu não entender, o que o fez tornar ao copo pra entornar a dor e o constrangimento. O homem era muito jovem pra saber, mas muito velho para se entregar: pensava sobre o querer e sobre a ilusão do querer, que é aquecida pelo descontentamento com seu intra-ser. Se ele a conhecesse, não seria ele e talvez não sendo ele, poderia se apaixonar. Porque a visão naquele fundo de bar era então somente um esboço do reflexo turvo da única água em que ele ousou beber. Toda a lama o impede de descobrir que ela não está ali, que nunca esteve e que sempre preferiu não estar. Talvez por ter a própria lama e águas turvas pra cuidar, águas essas que não guardam seu fantasioso amor. Insidioso, mas não vulgar, o homem se deteve em desejar, engoliu-se e fingiu não ligar: tudo passa e nada muda.
No dia seguinte, no desabotoar dos olhos, as dores do corpo gritaram clemência, mas a indecência era – como sempre foi – o maior dos protestos da alma. Continuou a destruir-se com a desculpa: tempo. É sempre sobre o tempo, tudo vai embora e nada muda. A alma seca, quebra e sangra sobre as rachaduras e se entreolha, derrotada, dizendo entre lamúrias: nada muda, e nada muda. Voltou-se ao bar, trôpego por antecipação pediu mais gim. Engoliu-se, percorreu as mesas com o olhar e esbarrou num reflexo singular que o fitava em cabelos negros.
Foi a simples conexão entre um nada e outra definição que fizeram o coração do homem parar. Os ombros nus pedantemente inocentes da menina riram daquele bar e o homem sorriu de volta primeiro. A criança pareceu não entender, o que o fez tornar ao copo pra entornar a dor e o constrangimento. O homem era muito jovem pra saber, mas muito velho para se entregar: pensava sobre o querer e sobre a ilusão do querer, que é aquecida pelo descontentamento com seu intra-ser. Se ele a conhecesse, não seria ele e talvez não sendo ele, poderia se apaixonar. Porque a visão naquele fundo de bar era então somente um esboço do reflexo turvo da única água em que ele ousou beber. Toda a lama o impede de descobrir que ela não está ali, que nunca esteve e que sempre preferiu não estar. Talvez por ter a própria lama e águas turvas pra cuidar, águas essas que não guardam seu fantasioso amor. Insidioso, mas não vulgar, o homem se deteve em desejar, engoliu-se e fingiu não ligar: tudo passa e nada muda.
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