A xícara e o chão

Se saio por birra ou desgosto, quebro. Me sinto como a xícara vazia na ponta da mesa torcendo pra se espatifar no chão. Estou cansada de ser enchida e esvaziada pelos mesmos que me encheram de início com a mesma bebida amarga ante a visão de precipício. Não há cabo que me sustente ou pires que me contenha porque estou rachada e, de tão rachada, vivo na visão turva do futuro chão: eu quero o chão. O chão pode ser fim, mas também ali há vida. Estou sentida e magoada, mas o chão me compreende. Estou fodida, carente e desexperiente – o chão me abraça. Mas o desejo logo passa e eu sou novamente a xícara. De gole em gole enjoando de mim mesma, sorrindo pra não calejar meus amigos de louça com as minhas vontades sujas. E faça o que quiser, só não me toque – nem pra me lavar! A mão que limpa só me limpa pra sujar, só pra continuar me usando. "Não fique assim", diz o copo, "Você só precisa de um descanso." Concordo. Mas não existe descanso ou esperança aqui, nem pano de prato que seque as minhas lágrimas. E até se eu quiser desistir, ninguém vai me sentir senão a vassoura e a pá. Isso porque há sempre louça nova pra usar – e sempre louça velha que ainda queira ser usada.

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