O lado oculto do colchão
Começou quando eu era mais novo e morava em uma casinha à caminho do interior da cidade. O lugar não tinha nada de extraordinário, mas era o suficiente: quarto, sala, cozinha e banheiro. Também tinha um pequeno canteiro, que eu usei pra cultivar tomates durante um tempo. O estranho indescoberto, porém, residia no meu minúsculo cômodo de descanso, o espaço cuja real natureza eu confesso jamais ter entendido.
Na época em questão — como em grande parte da minha existência — eu vivia sozinho. Meus amigos eram poucos e, a meu ver, quase totalmente delirantes. Prefiro assim. É difícil tarefa, para um louco como eu, estar próximo dos inalterados e castiços — por mera divergência de interpretação, eu presumo. Os sãos — como gostam de ser chamados — acreditam que o mundo em que vivemos contém alguma convergência lógica e essa ideia é, pra mim e para os outros cínicos, frívola. Assim, nós e eles acabamos pendendo a discussões fúteis e questionamentos inúteis que nos acabam provando loucos.
Eu sei o que poderá estar pensando agora e, se a natureza do seu raciocínio se divergir da minha, terá dado importância a uma questão em particular: como poderia eu, estando tão questionavelmente louco, dizer-lhe um conto sobre a realidade sem que, com isso, me fizesse paradoxal?
Nesse aspecto, em nada eu posso lhe ajudar. Afinal, é questionável o meu equilíbrio como é o seu. Posso narrar-lhe meus mais terríveis dias e acreditar em mim será tão insensato quanto duvidar do que eu digo, então por que não prosseguir com o primeiro?
Pois bem.
Eu já havia percebido alguma coisa estranha em especial com aquele cubículo da casa, mais especificamente com a cama onde eu descansava. Ao olhar pela porta, eu conseguia sentir que meu quarto inteiro parecia meio distorcido ao redor da cama. Ao me aproximar, essa impressão desaparecia e nada de muito estranho acontecia, então não dei mais do que a importância dada às inconsistências de ilusões ópticas. Um tempo depois, porém, o quadro começou a se complicar.
Começou com as moedas.
Durante os cochilos da tarde e da madrugada, os trocos e trocados esquecidos nos bolsos da minha calça começaram a desaparecer. De início eu pensei que era desvario meu, mas elas continuaram a sumir e eu comecei a prestar mais atenção. Não compreendia o porquê lógico da coisa, mas passei a checar meus bolsos antes de me aproximar da cama: a realidade por trás da insânia começou a ganhar forma.
Também passei a alertar os transeuntes daquela casa — em óbvio tom de zombação — para que não alimentassem a ganância da minha cama, já que ali habitava um espírito "conhecido por seu vício em jogos de azar".
Mas não foram só as moedas.
Numa ocasião em que meia dúzia de companheiros soluçantes caíram pela região, um deles encontrava-se especificamente bêbado e deixou a chave cair atrás da cama. Eu não estava presente no momento, mas os outros afirmaram que ela realmente caiu e haveria de estar lá de todo jeito.
Eu não acredito em superstições. Até o presente momento em que vasculho os acontecimentos nos porões da mente, temo haver um óbvio ignorado por trás desse enigma. O fato é que, por mais que procurássemos, não conseguíamos encontrar a chave e acabamos desistindo — depois, é claro, de mais dois ou três goles de gim. No dia seguinte, tornamos a procurar e — acredite — quase desmontamos inteira a cama a procura de quaisquer tipos de pistas sobrenaturais ou compartimentos secretos. Não estava lá. Meu colega negou de início, mas terminou aceitando com amargor a frustração. Eu, cético, desfiz-me em uma pequena nuvem de fumaça e lógica.
É de verdade incontestável que qualquer fato incomum, por mais obtusa que seja a sua natureza, torna-se cotidiano com o passar do tempo. Não torna-se, porém, menos perigoso: virar de costas pro abismo não faz com que ele te vire as costas.
Não obstante, a crise dos meus excessos já havia chegado e essas reuniões foram deixando de acontecer. O infortúnio foi esquecido e continuei a viver. A casa, porém, começou vagarosamente a sucumbir. O papel de parede começou a descascar e os canos da estrutura se puseram a ranger. A sinuosidade da estrutura podia agora ser sentida de fora do quarto e era quase como se a própria casa apontasse seu caminho pelo pequeno corredor. Comecei a experienciar insônia. Minha vida começou a decair.
Entretanto, as vontades posteriormente descritas aqui estão devidamente relacionadas aos meus sentimentos durante meu tempo naquela casa, sendo impossível determinar se foram influenciadas pela vivência naquele lugar ou se foram elas que tornaram a estadia ainda pior. Não posso dizer que aqui lhe narro verdade ou apenas ponto de vista. O fato é que eu me sentia atraído para a cama. Mesmo antes do que eu chamei ironicamente de "Ponto Chave", eu já apresentava tendência a permanecer a maior parte do meu tempo deitado naquele canto. Era um tipo de "desconforto aconchegante" que tal espaço me oferecia, um lugar de paz. Nem mesmo os mosquitos ali me perturbavam, mesmo zumbindo e zombando nos demais descantos da casa. Ao voltar do bar ou do trabajo, as molas do colchão eram as únicas que me tiravam o peso da maçante realidade e me davam minutos de falsa paz.
Meses se passaram e a minha condição somente ia se alastrando. Não gostava mais de trazer as visitas pois o ambiente as perturbava, deixava-as tensas e com pressa de sair. A gente se acostuma, se adapta, se encaixa onde dá. Meu encaixe era o colchão, o cobertor e o travesseiro. Chorei pouco; nunca fui de chorar. De forma sobrenatural ou cotidiana, me isolei do universo em que vivia e — pasmem — diminui até a bebida. Tudo não estava bem, mas também nada mal.
Sonhei.
Em meu sonho, um longo corredor em preto e branco me levou até uma porta de madeira. A porta se abriu e eu enfim fui puxado para o negrume universal. Senti frio. Não só o vento da noite, mas um gelar no cerne. Não quis tentar alcançar a porta e me contentei apenas em observar seu afastamento.
Acordei embriagado de sono e meu braço estava atrás da cama. Me deixei cair da cama com lençol e travesseiro e continuei a dormir no chão. De manhã, me lembrei do sonho e comecei a escrever.
Já faz três dias que eu não durmo.
Na época em questão — como em grande parte da minha existência — eu vivia sozinho. Meus amigos eram poucos e, a meu ver, quase totalmente delirantes. Prefiro assim. É difícil tarefa, para um louco como eu, estar próximo dos inalterados e castiços — por mera divergência de interpretação, eu presumo. Os sãos — como gostam de ser chamados — acreditam que o mundo em que vivemos contém alguma convergência lógica e essa ideia é, pra mim e para os outros cínicos, frívola. Assim, nós e eles acabamos pendendo a discussões fúteis e questionamentos inúteis que nos acabam provando loucos.
Eu sei o que poderá estar pensando agora e, se a natureza do seu raciocínio se divergir da minha, terá dado importância a uma questão em particular: como poderia eu, estando tão questionavelmente louco, dizer-lhe um conto sobre a realidade sem que, com isso, me fizesse paradoxal?
Nesse aspecto, em nada eu posso lhe ajudar. Afinal, é questionável o meu equilíbrio como é o seu. Posso narrar-lhe meus mais terríveis dias e acreditar em mim será tão insensato quanto duvidar do que eu digo, então por que não prosseguir com o primeiro?
Pois bem.
Eu já havia percebido alguma coisa estranha em especial com aquele cubículo da casa, mais especificamente com a cama onde eu descansava. Ao olhar pela porta, eu conseguia sentir que meu quarto inteiro parecia meio distorcido ao redor da cama. Ao me aproximar, essa impressão desaparecia e nada de muito estranho acontecia, então não dei mais do que a importância dada às inconsistências de ilusões ópticas. Um tempo depois, porém, o quadro começou a se complicar.
Começou com as moedas.
Durante os cochilos da tarde e da madrugada, os trocos e trocados esquecidos nos bolsos da minha calça começaram a desaparecer. De início eu pensei que era desvario meu, mas elas continuaram a sumir e eu comecei a prestar mais atenção. Não compreendia o porquê lógico da coisa, mas passei a checar meus bolsos antes de me aproximar da cama: a realidade por trás da insânia começou a ganhar forma.
Também passei a alertar os transeuntes daquela casa — em óbvio tom de zombação — para que não alimentassem a ganância da minha cama, já que ali habitava um espírito "conhecido por seu vício em jogos de azar".
Mas não foram só as moedas.
Numa ocasião em que meia dúzia de companheiros soluçantes caíram pela região, um deles encontrava-se especificamente bêbado e deixou a chave cair atrás da cama. Eu não estava presente no momento, mas os outros afirmaram que ela realmente caiu e haveria de estar lá de todo jeito.
Eu não acredito em superstições. Até o presente momento em que vasculho os acontecimentos nos porões da mente, temo haver um óbvio ignorado por trás desse enigma. O fato é que, por mais que procurássemos, não conseguíamos encontrar a chave e acabamos desistindo — depois, é claro, de mais dois ou três goles de gim. No dia seguinte, tornamos a procurar e — acredite — quase desmontamos inteira a cama a procura de quaisquer tipos de pistas sobrenaturais ou compartimentos secretos. Não estava lá. Meu colega negou de início, mas terminou aceitando com amargor a frustração. Eu, cético, desfiz-me em uma pequena nuvem de fumaça e lógica.
É de verdade incontestável que qualquer fato incomum, por mais obtusa que seja a sua natureza, torna-se cotidiano com o passar do tempo. Não torna-se, porém, menos perigoso: virar de costas pro abismo não faz com que ele te vire as costas.
Não obstante, a crise dos meus excessos já havia chegado e essas reuniões foram deixando de acontecer. O infortúnio foi esquecido e continuei a viver. A casa, porém, começou vagarosamente a sucumbir. O papel de parede começou a descascar e os canos da estrutura se puseram a ranger. A sinuosidade da estrutura podia agora ser sentida de fora do quarto e era quase como se a própria casa apontasse seu caminho pelo pequeno corredor. Comecei a experienciar insônia. Minha vida começou a decair.
Entretanto, as vontades posteriormente descritas aqui estão devidamente relacionadas aos meus sentimentos durante meu tempo naquela casa, sendo impossível determinar se foram influenciadas pela vivência naquele lugar ou se foram elas que tornaram a estadia ainda pior. Não posso dizer que aqui lhe narro verdade ou apenas ponto de vista. O fato é que eu me sentia atraído para a cama. Mesmo antes do que eu chamei ironicamente de "Ponto Chave", eu já apresentava tendência a permanecer a maior parte do meu tempo deitado naquele canto. Era um tipo de "desconforto aconchegante" que tal espaço me oferecia, um lugar de paz. Nem mesmo os mosquitos ali me perturbavam, mesmo zumbindo e zombando nos demais descantos da casa. Ao voltar do bar ou do trabajo, as molas do colchão eram as únicas que me tiravam o peso da maçante realidade e me davam minutos de falsa paz.
Meses se passaram e a minha condição somente ia se alastrando. Não gostava mais de trazer as visitas pois o ambiente as perturbava, deixava-as tensas e com pressa de sair. A gente se acostuma, se adapta, se encaixa onde dá. Meu encaixe era o colchão, o cobertor e o travesseiro. Chorei pouco; nunca fui de chorar. De forma sobrenatural ou cotidiana, me isolei do universo em que vivia e — pasmem — diminui até a bebida. Tudo não estava bem, mas também nada mal.
Sonhei.
Em meu sonho, um longo corredor em preto e branco me levou até uma porta de madeira. A porta se abriu e eu enfim fui puxado para o negrume universal. Senti frio. Não só o vento da noite, mas um gelar no cerne. Não quis tentar alcançar a porta e me contentei apenas em observar seu afastamento.
Acordei embriagado de sono e meu braço estava atrás da cama. Me deixei cair da cama com lençol e travesseiro e continuei a dormir no chão. De manhã, me lembrei do sonho e comecei a escrever.
Já faz três dias que eu não durmo.
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